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quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A verdadeira África

A verdadeira África

No limiar do terceiro milênio, qualquer um
que olhar ou quiser se interessar pela África, não
pode dispensar-se de refletir seriamente sobre
as causas profundas, internas e externas,
que provocam os conflitos, que continuamente
funestam e empobrecem o continente
em todos seus aspectos.

Terra de todos e de ninguém

Muito freqüentemente, a África é apresentada pela mídia (sobretudo do Ocidente) como um mundo atormentado por conflitos, guerras tribais e civis; ou também como o continente da fome, castigado pelo subdesenvolvimento, necessitado de tudo. Segundo o recente Programa Alimentar Mundial (WFP) e African Hunger Alert, pelo menos 38 milhões de africanos estão em situação de risco, sobretudo na região subsaariana e particularmente na Etiópia.

Sem esquecer a desertificação, que se soma às tantas feridas do continente. Outro fenômeno desastroso é a epidemia da Aids, que dizima as populações, especialmente os jovens, pondo em risco a própria sobrevivência futura do continente. Existem hoje na África milhões de refugiados, que vão do Sudão ao Burundi e à Ruanda, de Angola à Serra Leoa e à Libéria, da Costa do Marfim à Somália... e poderíamos continuar a lista.

A maioria deles desconhece o verdadeiro motivo de seu exílio, fundamentalmente baseado sobre causas políticas e econômicas, que os despojam do necessário. Estamos, portanto, diante de uma África de desamparados, de pessoas que não têm pátria, não têm alimentos, embora sejam ricas de todos os bens; que são destituídas até da própria dignidade, apesar de terem sido os antepassados da humanidade. Uma África pobre e mendiga, levada à miséria pelas mesmas razões políticas que difundem uma cultura de corrupção e de mentira através do continente. Com o desgoverno, muitos políticos contraíram dívidas externas absurdas, a ponto de tornar impensável a esperança de um futuro melhor e de um bem-estar plausível.

Praticamente, tratar-se-ia de uma África que nada conta, que pode não valer nada e que nem deve valer nada. Ao mesmo tempo, estamos convencidos de que a África não é, e jamais deveria ser, um “terreno de jogo” para as potências econômicas e as multinacionais e, menos ainda, uma abstração, porque ela se apresenta, de fato, seja como o berço da humanidade (basta pensar na herança universal de Tebas e de Alexandria, no atual Egito, e de Cartago, por exemplo), seja como sofredora (onde a vida se tornou difícil em todos os níveis) e, hoje, como terra da promessa, pois contém grande parte dos recursos naturais e alimentares da humanidade. A África se apresenta, assim, como terra de todos e de ninguém.


Atividades sociais, comunitárias e religiosas nas aldeias


No contexto da globalização, perguntamo-nos:

- que lugar ocupa o continente e qual é seu papel para o próprio desenvolvimento? Seria necessário saber se, em tal processo, a África assimila ou se é assimilada; se é considerada como mercadoria, e que, portanto, fica sujeita às leis do mercado, e a que preço está avaliada.

A outra África

Existe, porém, uma outra África; a dos valores humanos e espirituais, que muitos desejam guardar como uma cultura e uma riqueza a serem oferecidas à humanidade. Fala-se também da fuga de cérebros. De fato, muitos intelectuais, que suscitam muitas esperanças no seu povo, vivem em outros continentes por razões políticas, econômicas ou culturais.

A África tem, pois, a capacidade de virar a página e de dar novo sentido à sua história. A mudança política de governo em alguns países, por exemplo, no Quênia, na África do Sul e no Senegal, é semente de esperança para uma nova África, almejada por todos, e que só será edificada com a contribuição de todos, inclusive com os da diáspora.

Alguns nomes excelentes podem ser citados como sinais de esperança:

Wole Soyinka (prêmio Nobel de Literatura), Ki Zerbo (historiador), Nelson Mandela (prêmio Nobel da Paz e ex-presidente da África do Sul), Kofi Annan (Secretário-Geral da ONU), a senhora Wangari Maathai (prêmio Nobel da Paz). Eles são uma contribuição preciosa para a civilização africana e para a edificação de uma nova humanidade. É certamente possível estimular o progresso e a pesquisa para o desenvolvimento do continente em todos os aspectos:

cultural, econômico, político, baseando-se na própria mentalidade africana. A civilização africana tem origem comum e é urgente reconsiderar este aspecto para seu desenvolvimento. A atual divisão política africana foi um ato de arbitrariedade do colonizador.

As fronteiras impostas por ele secionaram tribos e dividiram etnias, transformando-as em inimigos comuns. Os especialistas consideram o período colonial na África como a época da morte de suas grandes culturas e civilizações. A instabilidade política de muitos países nasceu naquela época. O colonialismo, porém, não conseguiu criar uma nova civilização ou cultura africana. O que o sistema colonial criou foi uma estrutura superficial, sem qualquer raiz profunda na cultura africana original. É necessário retornar a esses espaços culturais para redescobrir a identidade africana, sobre a qual construir um futuro sólido, um progresso que corresponda ao caminho gradual do povo.

É, pois, possível recuperar a harmonia, a paz e a unidade na sociedade africana, revalorizando as instituições sociais de base, reabilitando as figuras carismáticas, como as dos chefes tribais e líderes de aldeias, que, mesmo respeitando os atuais sistemas de governo (com chefes-de-estado e chefes-de-governo), e neles se integrando, permanecem – todavia – como verdadeira referência na organização social africana. Seria também desejável seguir o exemplo de alguns países, como Camarões, em que os governantes introduziram o sistema político duplo, quer dizer: a câmara dos chefes tradicionais ao lado da dos deputados. Tal mecanismo evita que os governantes deslizem para um “Estado de Poder” ou um “Estado de Governo Autoritário”, o que torna possível estabelecer-se um modelo de governo em que política e economia estejam completamente a serviço dos cidadãos, um modelo de governo “à africana”.

Devemos elogiar o trabalho realizado pela OUA (Organização da Unidade Africana) – ver box, pág 24 –, mas ainda não se concretizou o “milagre econômico” continental e nem um sistema monetário único para a África toda. Na área econômica, muitas ações já foram realizadas: o lançamento do Mercado Comum da África Austral e Ocidental (COMESA); o espaço de Livre Comércio no contexto da Comunidade da África do Norte; as decisões sobre o sistema monetário, tomadas e adotadas pela Comunidade Econômica dos Estados da África do Oeste (ECOWA), que levaram à elaboração de um protocolo de intenções entre a Comunidade Econômica Africana e as Comunidades Econômicas Regionais.

Processos de unificação

A novidade, hoje, é o nascimento da União Africana, por ocasião da celebração do 38o aniversário da OUA, em Adis-Abeba (Etiópia). Se a OUA exerceu um papel preponderante na libertação dos países de condicionamentos coloniais, nos anos sessenta, e os levou à independência do Ocidente (pelo menos de maneira formal), o novo organismo – a União Africana – tem a tarefa de libertar o continente do neocolonialismo político e econômico deste mesmo Ocidente que, através da globalização, agora tende a controlar os processos econômicos dos Estados africanos independentes.

A criação de um Parlamento Pan-Africano (PAP) é de capital importância, como também o é a criação de um sistema monetário africano único:

- um Banco Central Africano e uma única moeda para as operações econômicas com todos os sistemas monetários do mundo. Atualmente, mais de 80% dos chefes-de-estado e de governo africanos já aderiram ao projeto da União Africana, a existir, de direito e de fato, quando os membros da OUA ratificarem a Constituição redigida para esta finalidade. A primeira conseqüência positiva da União Africana será derrubar as fronteiras geográficas entre os países africanos. Cada pessoa sentir-se-á cidadã africana. Poderá circular livremente de um país a outro e estabelecer vínculos culturais, políticos e econômicos com todos.

A criação de uma moeda única acabará com a exploração das nações por parte das multinacionais e determinará o valor das matérias-primas para todos os países da União. Isso permitirá um crescimento econômico expressivo no interior de cada nação em relação a seu produto interno bruto. O preço das matérias-primas poderá, assim, ser uniformizado para todos os países da União. A exportação dos recursos será regulada pela União e não será mais concebível que as riquezas de uma nação estejam em mãos de poucos. Uma comunhão, ou partilha de bens, será possível entre os próprios países que, unidos, combaterão o fenômeno da pobreza, na qual está mergulhada, e sem saída, elevada porcentagem da população. As relações entre a União Européia e a União Africana e com os Estados Unidos serão transparentes e será possível colaborar em diferentes esferas: educação, saúde e economia.

De fato, o dr. Geremia Scianca, representante da Comissão Européia, afirmou que os problemas da educação e da saúde são as realidades principais a impedir o verdadeiro desenvolvimento nos países da zona África-Caribe-Pacífico. Cada país poderá desenvolver uma política de auto-suficiência e, assim, reduzir a pobreza, implementando os direitos humanos no respeito à justiça. Sem tais garantias, os países africanos não poderão acompanhar os países ocidentais no contexto da globalização. Ao redor da União Africana nasceu a Nova Parceria para o Desenvolvimento da África (NEPAD), que, em sintonia com a ONU, mobilizará os esforços a fim de sustentar o desenvolvimento dos países menos favorecidos do continente, com o objetivo de ajudar a integração aos parceiros desenvolvidos, promovendo, assim, o diálogo e novas formas de cooperação internacional.

Hoje, no processo de globalização, todos estão conscientes sobre a necessidade de interdependência:

- o Ocidente e o Oriente precisam da África, assim como também ela necessita tanto de um, como do outro. Porém, se alguns países não forem realmente autênticos no relacionamento com os outros, há o risco de apresentarem um rosto falso de si mesmos e, assim, anularem valores e riquezas, que a própria diferença cultural tem a oferecer, para a fundação de uma comunidade mundial, alicerçada sobre a cooperação, a solidariedade, a partilha, a paz, a justiça e a comunhão.

A ORGANIZAÇÃO DA UNIDADE AFRICANA

A Organização da Unidade Africana (OUA, organização dos governos e dos chefes-de-Estado africanos) obteve sucesso na sua função porque alicerçou-se sobre sólidas bases culturais do continente. Confira alguns resultados já obtidos: a luta pela independência, pela igualdade, liberdade, dignidade, solidariedade e progresso social; contra a escravidão, o colonialismo, o apartheid e o racismo de governos minoritários, a injustiça e o derramamento de sangue; a solução do conflito entre a Etiópia e a Eritréia; a intervenção na República Democrática do Congo, que levou à convenção de Lusaka; a busca da paz em Serra Leoa; a restauração da paz na República federal islâmica das ilhas Comores; a conferência de paz de Arta em favor da reconciliação na Somália. Atualmente, a OUA está engajada na resolução de conflitos e em responder às necessidades do continente.

Limitemo-nos a pensar nos países da bacia do rio Mano (Serra Leoa, Guiné e Libéria); na situação do Burundi, da qual se ocuparam as negociações de paz de Arusha; no aconselhamento dado aos conflitantes de Angola e no sul do Sudão. O organismo também se preocupa com doenças, principalmente com o vírus da Aids, sem negligenciar o problema da malária e da febre hemorrágica, que ainda ceifam muitas vidas. A OUA desempenhou destacadas funções no processo de democratização dos países africanos, ajudando-os a passar de monarquias autocráticas a formas e sistemas participativos da população à vida política da nação.

Entre os principais avanços culturais, creditados às instituições da OUA, podemos citar: a independência total de quase todos os países africanos; a promulgação da Carta Africana de direitos humanos e dos povos, como complemento das constituições nacionais; o processo de democratização de sistemas políticos, como a superação de governos de partido único, por exemplo.

Um africano ao encontro do outro

por Martin Nkafu Nkemnkia

Venho da República dos Camarões. Sou membro da etnia bangwa, na região ocidental do país. Nasci numa família numerosa de 23 filhos e, como se pode imaginar, desde a infância até a maioridade, vivi sempre em contato com muita gente, a ponto de não saber o que é solidão. Vou expor, em cinco pontos, meu encontro com a alteridade à luz da comunicação africana.

A vida na família e com os amigos

A cultura africana é uma cultura comunitária:

- o sujeito social não é o indivíduo, e sim a comunidade. É na comunidade que recebemos nossa formação de cidadãos, que somos formados nas tradições, que aprendemos nossa língua e amadurecemos nossa identidade pessoal e cultural. Acho que nossos pais fizeram o melhor, tanto quanto possível, para nos educar aos valores constitutivos de nossa cultura.

Entre os que permanecem vivos em mim estão:

- o valor da família, da hierarquia dos membros do mesmo clã e da sociedade. Tais riquezas passam dos pais para os filhos e sua culminância repousa nos antepassados. São estes que nos inserem na sacralidade da vida e no sentido religioso da existência. Dentro disso tudo, cada qual tem um papel indispensável a cumprir na comunidade. Considerando o agir das pessoas, as atitudes nos diferentes momentos da vida diária, o próprio calendário da semana, do mês e do ano, tudo predispõe a festejos comunitários. Os aniversários e os onomásticos representam momentos especiais para todos festejarem comunitariamente.

Festejar, para nós, é importante em função da vida da família e da comunidade; por isso, eu nunca faltava a uma festa na aldeia e às organizadas nas famílias dos meus amigos. A festa, para mim, continua sendo um lugar da fraternidade, da partilha e da reciprocidade, porque nela reina a alegria, percebida nos rostos, onde a tristeza desaparece. Nesses momentos, a comunicação envolve todo o ser da pessoa e da comunidade. Também o corpo se torna veículo da comunicação através da dança, da música, etc. Assim, a festa é critério de avaliação da capacidade pessoal para se relacionar com os demais.



Artesanato e momentos da vida diária de alguns povos africanos

O encontro com outros povos e culturas ocidentais

Tendo freqüentado escolas católicas, tive a possibilidade de ampliar meus conhecimentos e começar a ver para além das fronteiras da minha terra. Nosso conceito africano de “irmão/irmã”, apesar de dilatado, não ultrapassava os limites da tribo. A idéia que o mundo é uma família, e que todos os homens da terra são irmãos e irmãs, foi-nos comunicada pelo cristianismo.

Compreendi que, fora da minha tribo não existem apenas soldados de outras tribos, mas que eles são também meus irmãos. Uma experiência especial marcou-me durante a adolescência. Eu tinha 16 anos quando alguns médicos, membros do Movimento dos Focolares, convidados pelos chefes do nosso povo, chegaram à nossa aldeia para combater a mortalidade infantil que, na época, atingia a maioria das crianças.

Seu empenho e testemunho, além de debelar a mortalidade infantil, marcaram o início de uma nova era para nosso povo. Como eu, muitos jovens sentiram-se atraídos pela mensagem cristã, que caracterizava a vida de tais médicos, e desejavam viver o Evangelho como eles. Porém, nossos povos tinham péssima lembrança da história e do encontro com os ocidentais, que haviam deixado sinais dolorosos: tráfico dos escravos, colonialismo, etc.

Tal domínio originou o conflito entre o mundo africano e o ocidental. Não existia confiança no relacionamento com os europeus, até quando isso parecia indispensável. Havia o medo de iniciar um diálogo entre as duas culturas. Mas aqueles brancos, por sua maneira de ser e de agir, derrubaram completamente nossos preconceitos, fazendo brotar entre todos um clima de amizade e de fraternidade universal. Eles tinham o espírito evangélico, que a todos abraça.

O encontro com outros povos e culturas do mundo

O encontro e a convivência com os membros do Movimento dos Focolares, provenientes de diversos países da África, da Europa, da Ásia e das Américas, tornou-se, para mim, uma chance de ouro para a percepção da própria identidade como cidadão do mundo. Não faltaram dificuldades, mas o desejo de pertencer ao mundo foi mais forte. “O rosto do outro” tornou-se cada vez mais o espelho para minha identidade. Minha cultura africana renasceu, ao me encontrar com as outras culturas do mundo.

Vivendo o Evangelho no dia-a-dia, amadureceu em nós a visão pluridimensional da realidade, que nos une a outros povos do mundo para a formação do cidadão do amanhã. Mas vigiamos sempre sobre nosso relacionamento recíproco. Queremos chegar ao conhecimento e à aceitação do diferente, porém sem reduzir a cultura alheia à nossa própria cultura; queremos cultivar o processo de integração e o diálogo, de maneira a preservar a identidade original de cada um, embora adquirindo, ao mesmo tempo, a novidade que cada cultura oferece.

“Vitalogia africana”

Minha estadia na Itália, por motivos de estudo, marcou-me como uma passagem sem volta. Como eu, muitos jovens africanos invejam o Ocidente pelo desenvolvimento do saber. Quase todos os ocidentais que eu conhecera na África eram profissionais especializados e ocupavam os cargos de maior responsabilidade. Sua ciência consentia isso. Quando me matriculei na faculdade de filosofia para perscrutar a profundidade do pensamento ocidental, sonhava, como todos os estudantes, em me tornar um grande filósofo e, assim, contribuir para o conhecimento do mundo e me aproximar aos mistérios da verdade, fundamento de cada identidade individual-pessoal.No transcorrer dos estudos, reparei, aos poucos, que eles me levavam, sim, a um conhecimento profundo da realidade, visto, porém, apenas pela ótica ocidental.

E me posicionei em atitude crítica frente a isso. Minha intenção era de aprender algo novo, mas também de doar algo da minha cultura. Participei de atividades interculturais em congressos, seminários, fóruns. Cheguei, na época do doutorado, a criar o neologismo “vitalogia africana”, expressão que designa a maneira africana de traduzir o pensamento humano, semelhante ao conceito ocidental de filosofia, mas que também se distingue dele. De fato, a primeira forma de interrogação sobre o homem, pela lógica africana, é uma questão sobre a vida. A resposta é que se pode encontrar o sentido da vida quando se compreende o sentido do outro, através da categoria de relação.

Dicionário intercultural

Agora estou dando minha contribuição ao processo de comunicação e diálogo intercultural, disseminando a cultura, o pensamento e a religião africanos, através de diferentes cursos em universidades eclesiásticas de Roma. Não podia escolher lugar melhor para isso, pois, em cada dia, é possível experimentar, com estudantes de todos os continentes e áreas culturais, as maravilhas das diferentes culturas.

Iniciamos juntos um empreendimento incomum:

- um dicionário intercultural, onde cada um define o mesmo termo, ou expressão, a partir da sua área cultural. Já percebemos que o pluralismo cultural deveria ser procurado na forma como são entendidos os valores nas diferentes culturas, e não na condição humana, que é uma só.

http://www.pime.org.br/mundoemissao/atualidadesafricaafrica.htm


O Preço do Big Mac

12/07/2010 - 00h05 / Atualizada 12/07/2010 - 03h06

O que o preço do Big Mac pode dizer sobre a moeda de um país?

Cox News Service

Laura Green

West Palm Beach (Flórida, EUA)

O que um Big Mac pode nos dizer sobre o preço do chá na China? Ao que parece, muita coisa.

Por 24 anos, a revista “The Economist” mediu o valor das moedas em todo o mundo usando dois hamburgueres, alface, queijo, molho especial, cebola, pickles e pão com gergelim.

A China, por exemplo, onde é possível comprar quase dois Big Macs pelo preço de um nos EUA, tem a moeda mais desvalorizada do mundo, concluiu a revista recentemente.

O Índice Big Mac foi criado para explicar um conceito econômico chamado paridade de poder de consumo, o conceito de que um dólar deveria comprar a mesma quantidade de um país para o outro. Se houvesse paridade, o preço de um produto – nesse caso um Big Mac – deveria ser o mesmo em todo o mundo.

O índice deste ano descobriu que os preços do Big Mac, convertidos para dólares norte-americanos, variava de US$ 6,87 na Noruega até US$ 1,83 na China. O preço médio nos Estados Unidos é US$ 3,58.

Embora o Índice Big Mac seja uma forma nova de olhar para o que o dólar é capaz de comprar em diferentes países, ele também se mostrou bastante acurado para indicar mudanças nas moedas, disse o professor Dave Denslow da Universidade da Flórida.

“Se o Índice Big Mac diz que uma moeda está desvalorizada, ela tende a se valorizar”, diz Denslow.

Foi exatamente o que aconteceu com a moeda chinesa, embora a pressão dos EUA e dos governos europeus tenha provavelmente exercido um peso maior sobre as mentes das autoridades chinesas do que uma palavra de uma publicação de negócios britânica.

No mês passado, poucos dias antes da reunião do G-20, a China anunciou que irá valorizar novamente o yuan.

Sindicatos e trabalhadores podem se beneficiar com isso porque as fábricas norte-americanas tinham dificuldades em competir com o baixo custo do trabalho e dos produtos da China.

Mas mais americanos poderão sentir a pressão disso em seus bolsos. Muito do que eles compram é importado da China, e um yuan mais caro irá fazer os preços subirem.

O alcance mundial do McDonald's faz com que o seu sanduíche mais famoso seja o produto perfeito, diz Rick Wade, que é dono de dez franquias da marca em Palm Beach County.

O Big Mac é vendido em mais de 100 países, em mais de 80% das 32 mil lojas do McDonald's no mundo. Franquias de poucos países rejeitam o produto por motivos culturais ou religiosos.

Mas onde quer que ele seja vendido, a megacorporação controla de perto a qualidade do produto, tornando fácil comparar o preço de um Big Mac em Boynton Beach com um em Bahrain, diz Wade. Quando Wade faz um pedido de hambúrgueres, ele escolhe entre cerca de três fornecedores, diz ele. E ele não pode simplesmente misturar o molho picante característico dos sanduíches em suas cozinhas. Ele precisa comprar o molho de um distribuidor aprovado para garantir que o hamburguer que ele venda seja fiel ao original.

“Esta é a razão pela qual o McDonald's é a marca que é, que é uma marca global tão poderosa”, diz Wade.

Com frequência, as franquias em outros continentes compram de fornecedores dos EUA, diz Wade.

A necessidade de vender um produto uniforme quase levou à falência as três franquias do McDonald's na Islândia, quando a moeda do país isolado no Ártico caiu no ano passado. O empresário Magnus Ogmundsson disse à Associated Press que na época ele era obrigado por seu contrato com o McDonald's a importar praticamente todos os ingredientes do sanduíche da Alemanha. Como a moeda islandesa, o krona, havia se desvalorizado muito, Ogmundosson teria que cobrar o equivalente a US$ 6,36 por sanduíche, o que o tornaria um dos Big Macs mais caros do mundo.

Em vez disso, Ogmundsson decidiu fechar suas três lojas e disse que planeja abrir outra franquia de hambúrgueres que não exija importações tão caras. Pode ser que o povo chinês e os turistas do país não vejam muita diferença no preço de um Big Mac durante algum tempo. Desde que a “The Economist” atualizou seu índice em março, o yuan valorizou apenas 1%.

E isso é provavelmente uma boa notícia – e não apenas para quem gosta de um bom e gorduroso hambúrguer.

Os chineses têm boa parte da dívida norte-americana.

A moeda chinesa desvalorizada mantém as taxas de juros dos EUA mais baixas e permite que o governo norte-americano pague o seguro social das pessoas, por exemplo, emprestando dinheiro em vez de pagando-o com impostos, diz Denslow.

A valorização da moeda chinesa é “algo que queremos ver amanhã e não hoje”, diz ele.

Enquanto isso, a passagem de avião pode ser cara, mas a China é o melhor lugar para comer um hambúrguer barato.

Tradução: Eloise De Vylder

Novos Cangaceiros

28/03/2010 - 07h30

'Novos cangaceiros' aterrorizam interior baiano

Especial para o UOL Notícias
Em Salvador

A ação de grupos fortemente armados que invadem pequenos municípios e aterrorizam moradores com sequestros, assaltos a bancos, casas lotéricas, prédios públicos e agências dos Correios virou uma realidade frequente no interior da Bahia. Esse tipo de ação criminosa, realizada pelos chamados “novos cangaceiros”, foi um dos temas da 35ª Reunião do Colégio de Secretários de Segurança Pública do Nordeste, que aconteceu no dia 18 deste mês, em Salvador.

Durante o seminário realizado em Salvador, os secretários da Segurança Pública e seus assessores contaram que os assaltantes que agem em grupo no interior do Nordeste ganharam o apelido de “novos cangaceiros” em referência a Virgulino Ferreira da Silva (1897/1938), o Lampião, o mais famoso “cangaceiro” do Brasil. Do começo da década de 1920 até a sua morte, Lampião e seu grupo praticaram ações de banditismo principalmente nos Estados de Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Sergipe e Bahia.

A mais recente vítima dessa modalidade de crime foi a cidade de Brotas de Macaúbas, na região da Chapada Diamantina, a 590 km de Salvador. No último dia 5, oito homens fortemente armados invadiram o pequeno município de apenas 14 mil habitantes, assaltaram a agência do Banco do Brasil, de onde levaram cerca de R$ 200 mil. Os assaltantes também fizeram comerciantes e um policial reféns, cortaram algumas linhas telefônicas da cidade e deixaram Brotas de Macaúbas atirando para o alto.

Menos de um mês antes, no dia 8 de fevereiro, cerca de 20 homens promoveram o terror na cidade de Amargosa, no Recôncavo Baiano, conhecida pelos festejos juninos e pela “tranquilidade”. Depois de bloquearem o principal acesso à cidade, que tem cerca de 40 mil habitantes, os “novos cangaceiros” assaltaram as agências do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal. Os assaltantes, que estavam encapuzados e armados com fuzis, fizeram clientes dos bancos e policiais como reféns e conseguiram fugir em dois veículos. A polícia e as duas instituições bancárias não informaram a quantia levada.

Em depoimento à polícia, Agripino Vieira, um dos reféns, contou que “ficou com medo de morrer”. “Eles assaltaram o meu carro e me jogaram na carroceria de um caminhão, também tomado de assalto pelo grupo. Em seguida, os bandidos colocaram mais dois reféns no meu carro e saíram em disparada pelo centro. Pensei que fosse morrer”, afirmou.

No segundo semestre do ano passado, em Umburanas, cidade de 17 mil habitantes, os “novos cangaceiros” festejaram a fuga dando mais de 50 tiros para o alto - em menos de uma hora na cidade, eles assaltaram três lojas, uma agência bancária, uma casa lotérica e dois prédios públicos. A Secretaria de Segurança Pública da Bahia informou que não contabiliza especificamente os crimes praticados pelas quadrilhas de “novos cangaceiros”. Nas estatísticas policiais, a prática é computada geralmente como assalto a banco ou a estabelecimentos comerciais.

Mas, segundo um levantamento feito pelo UOL Notícias em sites e jornais de Salvador e do interior, houve pelo menos 12 casos em que quadrilhas armadas aterrorizaram pequenas e médias cidades da Bahia apenas este ano. O primeiro caso, registrado em 5 de janeiro, aconteceu em Santa Bárbara, e foi um dos mais ousados. No município, os bandidos assaltaram a agência do Banco do Brasil. Antes de praticarem o assalto, os ladrões foram ao prédio onde estão localizadas as polícias Civil e Militar e trancaram o local com um cadeado, ganhando tempo para fazer o roubo tranquilamente.

Na agência, eles invadiram o local pelo telhado, cortaram a energia do prédio e roubaram o cofre. O dinheiro levado não foi informado nem pelo Banco do Brasil, nem pela polícia. Com a ação dos bandidos, a cidade ficou sem condições de saque financeiro. “O pior é que, geralmente, essas quadrilhas conseguem fugir com facilidade das cidades, pois possuem mais armamento do que o efetivo policial local. Não é à toa que escolhem pequenos municípios para agir”, afirmou o comerciante Rafael Neto, 33, que vendeu o seu estabelecimento em Feira de Santana (108 km de Salvador) depois de ter sido assaltado quatro vezes nos últimos dois anos. “Na última vez, eles (os assaltantes) contaram que precisavam de dinheiro e comida porque estavam planejando um ‘arrastão’ em duas cidades do interior”.

Durante o seminário realizado em Salvador, o secretário da Segurança Pública da Bahia, César Nunes, disse que é preciso intensificar o combate à criminalidade no interior. “É importante multiplicarmos as ações positivas e combater os crimes que são transnacionais”, afirmou. De acordo com o secretário, esse tipo de ação criminosa deve ser combatida com a vigilância das fronteiras e o aumento do policiamento. Ele informou que a polícia baiana vai colocar mais 3.000 homens nas ruas, e o interior será uma prioridade. Além disso, cerca de 300 novos carros foram adquiridos para as polícias Militar e Civil.